“A garota dinamarquesa” e a invisibilidade do amor entre mulheres

(por Raíssa Éris Grimm)

A garota Dinamarquesa” (filme dirigido por Tom Hooper, baseado no romance de David Ebershoff) não é simplesmente uma história de amor.
É uma história de amor entre mulheres.

Questão que é freqüentemente invisibilizada pelo olhar masculino e cisgênero de quem produziu o filme.

Se trata de uma história de amor entre mulheres, em 1920. Um amor que se inicia, presumivelmente, heterossexual – dentro do qual, aquela que havia sido assignada “homem” ao nascer, se descobre mulher. E então, casada com outra mulher.
Daí a gente pode se perguntar:
qual era realmente a possibilidade, naquela época, de duas mulheres se amarem, de duas mulheres viverem juntas?

Numa época que a palavra “lesbianidade” mal existia?
(praticamente não aparece no filme inteiro, salvo no momento que um grupo de agressores lê a protagonista como uma sapatão)

Amor entre mulheres naquela época não tinha visibilidade alguma.
O amor entre mulheres mal tinha nome
(e os nomes que existiam eram lidos como “perversão”, não como amor).

Então esse filme conta a história de duas mulheres,
que sim se amavam, se amavam muito
mas (quando uma delas começa a realmente se expressar e buscar visibilidade enquanto mulher)
não encontravam qualquer espaço de inteligibilidade pro amor que sentiam uma pela outra
em função da heterossexualidade compulsória – que lia o amor por outra mulher como algo contraditório a ser vivido pela protagonista na sua transição.

A protagonista, Lili, não expressa de fato desejo algum por homens.
Não desejo real.
Todas as cenas de afeto e erotismo real se davam com a sua esposa (antes de transicionar, e no inicio da transição).

A primeira cena em que um homem demonstra interesse por Lili, é nitidamente, uma cena de assédio. Uma cena abusiva, de insistência em transformar o ‘não’ inicial dela num ‘sim’.
Que é simplesmente romantizada no filme.
Que se transforma noutra dinâmica, posteriormente, quando através do olhar desse rapaz Lili encontra possibilidade de ser lida enquanto mulher (e se afasta do mesmo quando ele expressa que na verdade é homossexual).

O desejo que ela de fato expressa na relação com outros homens é o de ser reconhecido enquanto mulher.
Numa época em que a heterossexualidade compulsória era impiedosa, numa época em que não existia nenhum referencial de mulheres lésbicas, ser desejada por homens era a única possibilidade de ser reconhecida enquanto mulher.
E é isso que ela busca.

Mas afeto real – envolvendo erotismo, reciprocidade, troca (junto a muitos conflitos) – só existem com a companheira dela (a Gerda).

Sim, estamos falando de uma mulher trans lésbica, que precisa engolir e deixar a lesbianidade no armário, porque naquele momento isso simplesmente não tinha possibilidade de existir.
Não existiam mulheres casadas. Não existiam mulheres morando juntas, afetivamente. Não existia visibilidade pra amor entre mulheres.

A heterossexualidade compulsória também cruza e se agencia na subjetividade de Gerda, sua companheira.
Que só conseguia cogitar a possibilidade de amar Lili enquanto ela fazia o papel de “homem”
(mesmo que a dinâmica do relacionamento entre ambas estivesse bastante distante, o tempo inteiro, do “típico casal heterossexual” – mesmo antes da transição)

Novamente: ela não possuía qualquer referencial para a expressão dos seus afetos, porque todos os referenciais existentes de amor eram sobre “homens amando mulheres”.
No máximo de subversão – dentro de uma sociedade falocêntrica, em certos circuitos ‘alternativos’ – “homens amando outros homens”.

A lesbofobia, a lesbotransfobia, são pontos cegos do filme.
Não são abordados diretamente em momento algum.
Mas atravessam o tempo inteiro as dinâmicas que ali se desenrolam.

Lili é pressionada, por todos os lados, a se heterossexualizar para ter qualquer tipo de legitimidade enquanto mulher.
Destruindo toda sua história afetiva e dinâmicas que até então vivia.
Sua lesbianidade não encontra qualquer espaço pra ser nomeada, não encontra qualquer espaço pra existir, seus afetos são negados e massacrados do começo ao fim.

Fico pensando na sorte em que eu mesma, mulher trans sapatão, tenho em ter nascido na época de hoje.
Em como o avanço da luta e da visibilidade lésbica, ao longo das últimas décadas, ajudaram a muitas de nós travestis e mulheres trans lésbicas a encontrarmos outros referenciais para existirmos.

Pra entendermos que amor entre mulheres é uma possibilidade real, que não precisa ser negado ou destruído no nosso processo de transição.

Entendermos que amor não é apenas heterossexual, que sexo não consiste apenas em penetração, que nossa transição pode abrir possibilidades tantas, possibilidades outras, de reinventarmos nossos afetos através da reinvenção do corpo.

Fico pensando na sorte que Lili poderia ter tido, se outros caminhos afetivos pudessem existir como possibilidade.
Se a sua trajetória talvez não tivesse sido menos solitária, menos dolorosa, fora das grades que a hetero.cis.normatividade nos impõem.

Tenho a sorte de estar viva, (r)existindo travesti, (r)existindo sapatona.
Uma sorte que Lili não pôde ter.

“Dialogando” com terfs

imaginem esse diálogo (fictício):

“<A> Eu sou homossexual.
<B> Mas como você sabe que é homossexual?
<A> Bom, eu sinto atração por pessoas do mesmo sexo.
<B> Mas o que é sentir atração por pessoas do mesmo sexo?Basicamente, do ponto de vista das terfs:
<A> Não sei explicar muito bem… eu simplesmente sinto.
<B> E você faz disso uma identidade militante?
<A> Sim.
<B> Por quê?
<A>Porque eu sofro violência e discriminação cada vez que eu expresso e me relaciono com as pessoas de acordo a como me sinto. Porque nossa sociedade privilegia pessoas heterossexuais.
<B> Você está dizendo que eu, que sinto predominantemente atração por pessoas consideradas “do sexo oposto”, sou privilegiada?
<A>Em alguns aspectos sim.
<B> Isso é um absurdo! Você está dizendo que por algo tão vago, quanto nossos sentimentos subjetivos, uma pessoa pode ser privilegiada ou oprimida na nossa sociedade? Onde que fica a materialidade? Isso é individualismo liberal!
<A> Mas…
<B> Sabe o que eu acho? Pessoas homossexuais REFORÇAM os estereótipos de gênero.
<A> Como assim?
<B> O fato de você só se relacionar com pessoas do mesmo sexo pressupõe que o mundo continue se dividindo em 2 sexos. Vocês reforçam essa divisão, ao invés de abolí-la!
<A> Mas você que é heterossexual não faz a mesma coisa?
<B> Eu não nasci heterossexual, a sociedade me IMPÔS a heterossexualidade. A gente não sai simplesmente “escolhendo” como vai sentir. A sociedade nos socializa e nos marca dentro desses padrões.
<A> Mas eu também não “escolhi” ser o que sou
<B> Mas você continua reforçando a divisão dos gêneros com base em quem você se relaciona, ao invés de abolir essas categorias!
<A> Mas o que eu sinto…
<B> Dar relevância ao que você sente é individualismo liberal. Nossa luta
coletiva precisa ir além ‘do que sentimos individualmente’.
(fim da conversa fictícia).

Agora voltem a fita na conversa, e
Troquem os termos: “Homossexual” por “pessoa trans”.
Troquem: “sinto atração por pessoas do mesmo sexo” por “não me reconheço no gênero que me assignaram quando nasci”.
Troquem: “Heterossexualidade” por “cisgeneridade”.
Troquem: “reforçam a multiplicação do mundo em 2 sexos ao invés de abolí-la” por “incentivam a multiplicação dos gêneros, ao invés de destruí-la”.

Essa é a experiência de “conversar” com uma terf sendo uma pessoa trans.

Abrindo o código dos ciúmes: sobre sentir compersão desde a monstruosidade

eu ando com vontade de escrever algumas coisinhas sobre “amor livre”, sentimentos de compersão, ciúmes, e etc.

Muitas vezes, eu sinto que rola uma hierarquização sobre as pessoas, com base nas emoções que elas sentem. Do tipo “pessoas que sentem bons sentimentos” (sentimentos valorizados dentro de certo contexto histórico, social, político) frente a “pessoas que sentem maus sentimentos” (sentimentos condenados dentro de certo contexto histórico, social, político).

Isso vale pra muita coisa, desde a forma como nossa cultura coloca raiva como uma coisa “de pessoas más” e resignação como algo “de pessoas boas”.

Eu sinto que entre o micromundinho de pessoas que pensam criticamente a monogamia compulsória, rola muito pouca elaboração sobre a forma como a gente pensa coisas difíceis e complexas tal como Ciúmes, e acaba que a gente aciona esse velho mecanismo de hierarquizar pessoas com bases em emoções. Pessoas que sentem compersão são aparentemente “pessoas boas”, purificadas, livres do que é sujo e ruim. Pessoas que sentem ciúmes são lidas como “pessoas más”, neuróticas e noiadas.

Questão é que o sentimento de compersão é muito ligado ao sentimento de auto-confiança. À possibilidade de sentir que não dependemos exclusivamente de uma pessoa para ser amades, desejades ou cuidades.
Que o sentimento de ciúmes é muito ligado a sentimentos de insegurança. À incerteza de que o mundo, fora da relação com uma determinada pessoa, nos pode ser acolhedor.

Disso, a gente precisa entender que estes sentimentos de “auto-confiança” e “insegurança” não estão desvinculados da posição que a gente ocupa em termos do que é considerado desejáve ou indesejável dentro da nossa sociedade.
Por exemplo: se você é uma pessoa branca, cis, sem deficiências, magra, bonita, é muito mais fácil que o mundo parece um lugar amoroso e acolhedor pra você – do que se você é uma pessoa trans*, e/ou uma pessoa negra, e/ou uma pessoa gorda, e/ou uma pessoa marcada pelo estigma da deficiência, e/ou uma pessoa fora dos padrões de beleza, etc.

A gente vê que, dentro dos próprios rolês libertários que falam de “amor livre”, as pessoas não questionam essas desejabilidades. As pessoas continuam hierarquizando “dyvas do rolê”. As pessoas continuam desejando mais rapidamente os corpos que mais situam-se dentro dos padrões de normalidade.

É muito mais difícil, para pessoas marcadas em uma posição abjeta, de não-desejo, sentir-nos “felizes” e “compersivas” por relacionamentos que expressam as mesmas dinâmicas desejantes que sistematicamente nos rejeitam e nos excluem.
Ao mesmo tempo, nossa infelicidade e nosso ressentimento são marcados como sentimentos de “más pessoas”, o que acaba fodendo ainda mais nossa auto-estima.

Não quero aqui naturalizar que pessoas em posição minoritária “não conseguem sentir compersão”, que estamos condenadas a viver com ciúmes, muito menos que somos incapazes de levar relacionamentos abertos. Mesmo porque eu sou uma pessoa trans* que não tem o menor interesse em relacionamentos monogâmicos.

O que eu quero chamar atenção é que, pra muitas de nós, o trabalho de processar e lidar com ciúmes é um trabalho em dobro, porque as inseguranças implicas se interseccionam com opressões que a gente não escolheu viver.
Que a uma parte considerável das pessoas que falam de “amor livre” partem de posições privilegiadas, que fazem pouquíssimo (pŕaticamente zero) esforço pra desconstruir seus sistemas de desejabilidade, e seguem tratando nossos fantasmas como uma responsabilidade individualmente nossa, das “más pessoas” (como se tivéssemos escolhido ter que lidar com seus sistemas de desejo escrotos e opressivos).

E ainda com tudo isso nós, as monstras, seguimos no processo de desconstruir e reinventar nossos afetos. Cada vez menos monogâmicos, sim senhorxs.
Mas também cada vez menos racistas, menos transfóbicos, menos capacitistas, menos gordofóbicos.
Porque o ideal de “amor livre” das pessoas brancas, cis, magras, bonitas, e sem deficiência definitivamente não nos interessa

beijocas más.

Heresias não-binárias

sapatrrrans 1

Poderíamos pensar nossas crenças como espécies de lentes, através das quais se filtra nossa relação com a realidade (com corpos, afetos, o que se move em geral).

Existem crenças-lentes que nos limitam. Que recortam nossa possibilidade de discernir as diferentes nuances do que nos rodeia. Nos fazem agrupar corpos e pessoas em grupos uniformes dentro dos quais, muitas vezes, estas não cabem.

A crença de que as pessoas se dividem “naturalmente” e “biologicamente” entre Homens ou Mulheres é uma dessas crenças-lentes que nos limitam.

Através dessa crença, os discursos da medicina, da biologia, da psicologia, antropologia, etc, contruíram um conjunto de narrativas, que oferece sentido aos corpos (nossos e alheios).
A partir dessas narrativas da nossa sociedade, as pessoas são pressionadas a construírem entendimentos sobre si próprias e sobre as outras, com base nessa divisão.

Nossa cultura pressiona que a gente se entenda enquanto “indivíduos” (entidades que não podem ser divididas”) – entendimento a partir do qual somos responsabilizades moralmente, juridicamente, psicologicamente, etc. E dentro desse entendimento de si enquanto “indivíduos”, pressionam que a gente construa um “senso de pertencimento” a um gênero que essa mesma cultura nos assigna: “você será como um homem” / “você será como uma mulher”.

Assim, existem aqueles que muito crêem “sou assim porque sou homem, nasci homem, sempre serei assim porque sou homem”/ “sou assim porque sou mulher, nasci mulher, só poderei ser isso porque sou mulher” – ” [X pessoa] é assim porque é homem, nasceu homem, sempre será como homens” / “[Y pessoa] é assim porque é mulher, nasceu mulher, inevitavelmente terá esse tipo de comportamento”.

Tudo isso com base em ficções. “Homem” e “Mulher” não são entidades que existem de fato. São significados que nossa sociedade constrói, filtrando a percepção dos nossos corpos (peneirando sua diversidade, dissociando-nos do que não encaixa), filtrando a percepção dos nossos comportamentos (peneirando sua diversidade, dissociando-nos do que não encaixa), filtrando a percepção dos nossos afetos (peneirando sua diversidade, dissociando-nos do que não encaixa), etc.

Acontece que algumes dentre nós vivemos a partir de referências, sensações, e experiências que não se encaixam nas lentes-crenças do binarismo. Algumes dentre nós percebemos que a maior parte do que nos proporciona afeto, potência e sentido sobre quem somos, não cabe nas caixinhas “homem / mulher”. Algumes dentre nós olhamos pra essas entidades coletivas chamadas “Homens”, e não conseguimos entender como “sou um deles”. Algumes dentre nós olhamos pra essas entidades coletivas chamadas “Mulheres”, e não conseguimos dizer “sou uma delas”. Não por uma questão de vontade, mas porque nossas experiências simplesmente não cabem.

E apesar disso, não deixamos de ser socialmente cobradas a nos articular enquanto indivídues. Seria maravilhoso simplesmente transcendermos nossas identidades, não sermos cobrades (jurídica, moral, e psicologicamente) a ter uma resposta sobre quem somos (incluindo nossos nomes). Mas nós continuamos sendo cobrades a responder a pergunta “Quem é você?”, independentemente de nossa vontade ou desejo. E, no entanto, as respostas-padrão das quais dispomos para responder estas perguntas nos silenciam, nos invisibilizam, e nos violentam diariamente, lançando nossas vivências enquanto algo supostamente “delirante”, “fantasioso”, “narcisístico”. Muites dentre nós vivemos sob a contínua sensação de não-lugar, de não-existência (de uma forma muito mais extrema do que normalmente vivem as pessoas articuladas dentro de experiências cisgêneras*)

A partir disso, dessa vivência de não-lugar, muites dentre nós temos lutado para construir sentidos e narrativas próprios, auto-gestionados que, ao invés de matar e silenciar nossas vivências, lhe ofereçam alguma inteligibilidade às nossas experiências não-binárias de sexo-gênero.

Nós somos as pessoas trans não-binárias.
Somos corpos e vidas hereges, dissidentes, desobedientes à religião oficial que prega tudo dividir entre “masculino X feminino”.
Vivemos porque aprendemos a enxergar aquilo que o binarismo não sabe enxergar.
Vivemos porque aprendemos a ouvir aquilo que o binarismo não sabe ouvir.
Vivemos porque aprendemos a sentir aquilo que o binarismo não sabe sentir.

Compartilhamos afetos através das nossas peles, nossas línguas, nosses corpes profanes, reinventando sílabas, cumplicidades, alianças, afetações e magias.
Lutamos por um mundo outro, onde nossos corpos não se limitem pelos atestados médicos e jurídicos que nos designaram, pelos hormônios que nos atravessam ou deixam de atravessar, por nossos pêlos ou nossas genitálias, por como nos examinam ou deixam de examinar.

Por um mundo onde pulse aquilo que é mágico, delirante, múltiplo, absurdo, afetivo, aberto e dançarino entre todes nós.

[*pessoas cisgêneras → pessoas cujo senso de pertencimento a uma identidade de gênero coincide com as assignações médico-jurídicas atribuídas a quando esta nasceu.

Diferentemente de pessoas trans, cujo senso de pertencimento a identidades de gênero não coincide com esta assignação médico-jurídica.

Pessoas trans podem ser entendidas enquanto “binárias”, quando sua identificação dissidente articula-se a um dos 2 gêneros legitimados por nossa cultura (homem/mulher), e “não-binária” quando sua identificação dissidente não se articula a um destes 2 gêneros (seja por fluir entre estas identidades, seja efetivamente por não identificar-se com elas ) ]

Amores próprios, amores livres

(amores próprios, amores livres)

O cis.tema em que a gente vive funciona por sua capacidade de nos roubar tudo o que poderíamos ter de amor próprio.

Dentro dessa vulnerabilidade, a gente aprende que precisa ter ‘valor’ dentro do que produz e reproduz essa sociedade. Parte disso implica na obrigação de sermos ‘trabalhadoras’, pessoas produtivas. E parte disso implica (especialmente para mulheres e demais pessoas não-homens-cis) em buscarmos o ideal de um amor que nos complete, que nos tire dessa posição de vulnerabilidade.
E esse cis.tema oferece todo tipo de imagens e narrativas sobre como esse amor deve ser. É necessário que seja monogâmico. Preferencialmente heterossexual. Que as pessoas envolvidas estejam alinhadas com o gênero assignado no nascimento. É necessário que controlem e coordenem o tempo uma da outra, privando a conexão dessa pessoa com potências que possam colocar esse modo de vida em risco, mantendo apenas o necessário para o trabalho, e para a produção de uma vida conjugal.

O cis.tema nos injeta fantasmas – todo tipo de ditados, histórias, dentro do qual aprendemos que toda relação que escape a isso é um ‘fracasso’, e que ‘fracassos’ são dejetos que precisam ser descartados. Disso tudo, o vínculo forte entre rejeição amorosa e suicídio – suicídio que, por sua vez, agencia-se muitas vezes como chantagem manipuladora para o sustento de certas relações;

Nisso tudo, eu sinto que – especialmente para pessoas que não são homens cis – tudo o que pode ser chamado de “amor livre” começa por amor próprio. Começa por mudar a relação com o que entendemos por ‘fracasso’. Começa por criar outras formas de viver nossas solidões.

Falar em ‘amor livre’ é falar na construção de um outro modo de vida.
Que não começa, e nem necessariamente passa, por “estar em relacionamento com alguém”.

Construir esse modo de vida (que, diferentemente do heterocapitalismo, não têm fórmulas, ainda está por se inventar) não é uma tarefa individual. E também não é uma tarefa conjugal (outra variação do individualismo).
É um processo que passa pelas redes de amizade que criamos, pela forma como gestionamos coletivamente nosso tempo, nossa alimentação, nosso cuidado com o corpo, nossos trabalhos.
É através disso que podemos fazer frente aos mecanismos de vulnerabilização do heterocapitalismo, que produzem inseguranças em escala industrial, pra construirmos coletivamente nossos “amores próprios”.
Também pela construção de outras narrativas, outros imaginários, outras formas de temporalizar e organizar nossos sentimentos.

É desde aí que os fantasmas que produzem ciúmes, inseguranças e necessidades de controle podem perder peso e sumir. É desde aí que o sentimento de ‘compersão’ consegue efetivamente se produzir.

(s)exílios

exilada
do homem que poderia ter sido

esparramada no mar aberto
onde meus peitos nascem
e todas as dores se derramam

exilada
da mulher que jamais serei

espalhada ao luar incerto
onde meus pêlos insistem
e o arame farpado se entrama

rumos quebrados
exílios de uma vida
que desistiu de ser.

Sobre passabilidade cis

existe uma diferença imensa entre
você pertencer a um grupo privilegiado
e você “passar como se fosse” uma pessoa que pertence a esse grupo privilegiado.

Passabilidade cis
significa que você (pessoa trans*) é lide pelas outras
sem ter a sua dissidência ao sexo assignado no nascimento
posta em evidência

em alguns casos
isso significa que a pessoa está te lendo como você não se identifica
(acionando a violência chamada: disforia)
em alguns casos
você está se camuflando de algo que você não é, pra evitar sofrer certas violência
(acionando outra violência chamada: armário)
em todos os casos
pode surgir uma relação de hostilidade e violência a qualquer momento
que a pessoa que te lê seja confrontada com sua transgeneridade.

Passabilidade cis
é um EFEITO da transfobia,
do olhar cissexista que distorce nossas imagens
dentro daquilo que prefere enxergar.

NENHUM grupo oprimido tem controle sobre como o olhar do opressor decide nos ver.
Pessoas trans*
NÃO POSSUÍMOS CONTROLE sobre como pessoas cis decidem nos enxergar.

Pessoas cis (especialmente homens) tendem a se aproveitar dos nossos momentos de passabilidade
tentando roubar nossos corpos das coletividades que efetivamente pertencem
para que nossa imagem sirva de interface ao exercício, ou à legitimação, das suas violências.

Passabilidade cis
não é um privilégio.
É um seqüestro cis.temático das potências que efetivamente somos.
Das alianças que efetivamente desejamos.
Das vidas que efetivamente pulsamos.

(nota: pessoas trans* que são chamadas de “viado”, “sapatão”, “caminhoneira”, “bicha” – e outras ofensas que historicamente foram associadas a lésbicas e gays – NÃO TÊM PASSABILIDADE, QUANDO ESSAS OFENSAS SE DIRIGEM À SUA EXPRESSÃO DE GÊNERO. Isso é reflexo de um momento histórico em que identidade de gênero e sexualidade não eram vistas como distintas. Essas ofensas, quando dirigidas a pessoas trans*, são transfóbicas, e não homo-lesbofóbicas como se costuma presumir)

Transhomofobias / Translesbofobias

A gente costuma pensar nos espaços Gays e Lésbicos enquanto espécies de bolhas, dentro das quais em que a Heterossexualidade/práticas Heterossexuais não são bem-vindas (ao menos entre as pessoas que se identificam diretamente enquanto lésbicas ou gays).

Mas existe uma versão de Heterossexualidade que é amplamente legitimada, e reforçada de forma compulsória nestes espaços, no que se trata da relação com corpos dissidentes à cisnormatividade.
Quando se trata da relação entre Gays e Lésbicas Cis com pessoas trans*.

Não é incomum a gente ver homens cis auto-identificados como gays que se atraem por mulheres trans*. Não é incomum a gente ver mulheres cis auto-identificadas como lésbicas que se atraem por homens trans*.

Partindo da premissa de um respeito radical à identidade das pessoas trans*, a gente precisa começar a chamar essas relações/desejos pelos seus devidos nomes, e entender que são desejos Heterossexuais amplamente presentes (e legitimados) dentro da cena Gay/Lésbica.

Tampouco é incomum nos depararmos com um contexto em que homens trans* e pessoas não-bináries AFAB costumam ser rejeitades na cena gay, bem como mulheres trans* e pessoas não-bináries AFAB costumam ser rejeitades na cena lésbica.

Efetivamente, essa lógica de atração/rejeição costuma ter por premissa negar a identidade das pessoas trans* – posto que, para as pessoas cis, tratam-se de homens que “no fundo” são mulheres e mulheres que “no fundo” são homens. A genitália permanece enquanto parâmetro para nos marcar como “verdadeiros homens” ou como “verdadeiras mulheres”. Dentro dessa negação, tais desejos quase nunca são admitidos como “heterossexuais”. Muito raramente estas pessoas cis admirem a possibilidade de se identificarem (por exemplo) como “bissexuais” quando sentem este desejo.

No entanto, Esse conjunto de atraçõe/rejeições têm por efeito pressionar cistematicamente pessoas trans* a relações heterossexuais.
Pressão que violenta muito especialmente lésbicas AMAB e gays AFAB que compõem o universo trans*.

Arriscaria usar as palavras Transhomofobia e Translesbofobia, enquanto variações específicas da homofobia e lesbofobia que atingem pessoas cis. Trata-se de pensar a forma específica como a heterossexualidade compulsória nos atinge enquanto pessoas trans* dentro da cena lésbica/gay, bem como fora dela.
Translesbofobia e Transhomofobia que não se dissociam dos protocolos psiquiátricos do “processo transexualizador”, dentro dos quais o desejo por pessoas do mesmo gênero ainda é um parâmetro de invalidação das nossas identidades.
Aparentemente, é um preço a pagar por nossa dissidência de gênero: “ok que você não se identifique como o que te assignaram; mas não nos complique a cabeça, o mínimo que você precisa fazer é relacionar-se com pessoas do gênero ‘oposto’ “.

De fundo às translesbofobias e transhomofobias, permanece a idéia de que o sexo é algo “instintivo”, “genético”, “biológico” – em algum aspecto, colado à “química dos feromônios” bem como às nossas genitálias. Essa lógica biologicista foi abraçada principalmente pelo movimento Gay ao argumentar que a homossexualidade, em se tratando de algo “inato”, “natural”, e “biológico”, não poderia ser curada por tratamentos de “mudança de comportamento”.

Se esse argumento pareceu, em algum momento, eficaz, certamente o foi apenas para pessoas Cis. Dentro da vivência de pessoas trans* – especialmente nãoheterossexuais – tornou-se apenas um dispositivo a mais para legitimar exclusões, rejeições, difamações e toda sorte de violências contra nossos corpos.

(in)visibilidades não-binárias

A existência de pessoas trans* é por si só bem invisível. Quanto é visível, é estereotipada.
No que se refere a pessoas trans* não-binárias, sequer cogitam que a gente existe. E rolam pouquíssimas referências sobre a singularidade dos nossos processos, formas de tratamento, e etc. A maior parte das pessoas acaba transpondo expectativas que se referem a pessoas binárias, sobre a gente.
Então eu queria só enfatizar algumas coisas, pra quem talvez não saiba:
eu não sou homem (nem estou “me tornando um”). E eu também não sou mulher (nem estou “me tornando uma”).
SE (aqui é uma hipótese construída desde minha visita a universos paralelos) eu me identificasse como “mulher”, certamente seria bem fora e bem longe dos padrões compulsoriamente estipulados pelo patriarcado. Não compro a idéia de que é necessário “ser feminina” para “ser mulher”.
E mesmo em termos de feminilidade, não acredito nas feminilidades dóceis, limpas e castradas que a Psiquiatria e a Psicologia demandam compulsoriamente das pessoas trans*.
Acredito em feminilidades desobedientes, raivosas, sujas, subversivas, satânicas, combativas.
(e, definitivamente, não seria hétero)
(voltando da viagem às realidades paralelas)
Porém, de todas as formas, mesmo com tantas possibilidades de identificar-me enquanto mulher que não excluem o corpo que eu habito hoje, essa NÃO É a identidade dentro da qual eu me reconheço ou me reivindico.

Que fique evidente: não existem só 2 pólos de existência no mundo.

Não existe só “ser homem” e “ser mulher”.
Nossas peles, nossa forma de tocar, nossos olhares, nossas vozes, nossas palavras, nossas faces, nossas posturas, nossas respirações, nosso jeito de vestir, de andar, de se maquiar, nossos afetos, nossos alfabetos.. enfim, nossas formas de existir podem ser bem mais complexos do que cabe nessas 2 caixinhas.
Se faltar referências imaginativas, imaginem-nos como “ficção científica”. Uma vez que somos justamente a matéria do que algumas ficções científica são metáforas; e uma vez que os discursos científicos que construíram as verdades que você possui sobre “sexo” são ficções também.

Eu não sou “uma pessoa perdida no meio do caminho”.
Nada contra pessoas que estão “perdidas” (perder-se não é um defeito), mas “perder-se” só existe em referência a um destino pre-estabelecido cuja trajetória você não consegue mais encontrar. Eu, tantas outras criaturinhas não-binárias, simplesmente não temos esse destino. Não pretendemos ter.
O não-lugar é nossa casa, esse caos de amores e feridas dentro do qual encontramos abrigo, alimento, vida e armas pra resistir, onde conseguimos respirar.

obsessão X nomadismo identitário

Esse texto traz inquietações. Traz problemas. Não tem uma pretensão de definir ‘verdades’, nem de trazer respostas definitivas. Mas tenta propor algumas pistas.

É sobre o quê? O ponto de partida aqui é pensar sobre uma série de conflitos, intrigas, perseguições e ameaças têm surgido na cena de algumas cenas ativistas. DENTRO destas cenas. Quer dizer, envolvendo pessoas que supostamente (ênfase no supostamente) deveriam estar aliando-se na luta contra o patriarcado, contra o cistema, contra o heterocapitalismo. E parece que se separam cada vez mais.pelo fim de toda e qualquer opressão

É impossível dar visibilidade a todos os problemas envolvidos nesses conflitos, mas queria indicar uma coisa / um vírus, um hábito, uma tecnologia, uma prática corrente na construção de movimentos sociais / que talvez esteja alimentando estas intrigas: vou chamar aqui de obsessão identitária.

(a) O que eu to chamando de identidade? (b) E o que eu quero dizer por obsessão?

Existem várias definições de identidade mas, dentro do contexto ativista, costuma significar: a leitura, o diagnóstico, sobre violências, opressões e/ou privilégios que são (estruturalmente) compartidas por um determinado grupo.

Identidades podem ser um ponto de referência, para mapear a posição que o mundo nos coloca nas relações de poder.

Reapropriar-se de uma identidade pode significar reapropriar-se das marcas que a sociedade traça no seu corpo (marcas traçadas através de violência sexista, transfóbica, racista, heteronormativa). Frente a isso, assumir uma identidade pode ser um ponto de partida, precisamente para que possamos transitar para além dessas posições, para além dessas marcações.

Entender as violências e os medos que passamos para aprender com eles, nos tornar mais fortes.

O problema é quando, ao invés de funcionar como um ponto de partida, as identidades tornam-se uma finalidade. Isso funciona em pelo menos três sentidos (complementares):

(1) fazer da identidade algo que precisa ser protegido, vigiado, resguardado pelos movimentos sociais, para impedir que as “pessoas erradas” transitem em uma luta onde elas não podem estar.

A identidade sempre implica a separação entre nós e outros, pressupondo que essa divisão é explicitamente nítida e empírica. A questão é: o que acontece com pessoas que habitam a fronteira? Como dar conta de lutar contra o sexismo atingindo pessoas trans* que não são nem homens nem mulheres? Como dar conta de enfrentar o heterossexismo que atinge pessoas bissexuais, sem estigmatizá-las?

As identidades sempre lidam com o risco de que pessoas erradas podem se apropriar dela. Compõem formas de policiamento, então, para evitar que isso aconteça: definem padrões para decodificar uma “verdadeira pessoa transgênero” de outra que “está só fingindo”, por exemplo, padrões que são cisnormativos por excelência.

(2) fazer da identidade uma posição estrutural fixa, fechada, dada de antemão pelo “destino”. E o papel desse “destino” pode ser interpretado pelos mais diversos personagens: desde o essencialismo biológico até a noção de uma super-estrutura histórica que nos condena a papéis fixos e inalteráveis.

a identidade é um câncer, que reduz nossas vivências e experiências a aquilo que é inteligível e codificável (nossas posições binárias: homem/mulher, hétero/homo, cis/trans), esmagando processos micro que têm o poder de arruinar as categorias que habitamos, para devirmos algo além do que nos destinaram a ser.

(3) a identidade abstrai, e idealiza, os grupos de resistência que propõe a construir como os únicos espaços seguros e livres de violência que podem existir para as pessoas que sofrem aquela opressão.

Essa idealização, por vezes, atrapalha a problematização interna das práticas que compõem este mesmo grupo.

(4) essa mesma supressão de tudo o que não é inteligível ou codificável, nos torna previsíveis, mais facilmente controladas e manipuladas pelos poderes do Estado.

Resumindo, toda política que toma a identidade como uma finalidade: reproduz opressões;  silencia exercícios de opressão; destrói o desejo e possibilidades reais de mudança;  torna-se calculável e manipulável pelos mesmos regimes de poder a que se opõe.

A identidade constrói um senso de participação política dentro de movimentos. Mas, a longo prazo, é incipiente para fazer dos movimentos uma ameaça real contra o patriarcao, contra o cistema, contra o heterocapitalismo, uma vez que agrupam pessoas desde quem elas são, e não desde que práticas e modos de vida estão construindo.

Se existe algo que realmente ameaça a obsessão identitária das militâncias contemporâneo, é o nomadismo identitário.

O nomadismo identitário implica que as marcas identitárias não são fixas, mas (ao menos enquanto vivemos) marcas e posições passíveis de se transformar com nossas práticas, com os lugares por onde transitamos.

O nomadismo identitário implica a possibilidade de lutar desde o molecular, desde o que se infiltra, desde o que produz desejo, vitalidade e forças ativas. Não se trata apenas de uma reação, mas de ação direta no sentido de transmutar as relações que vivemos.

O nomadismo identitário não idealiza a segurança de grupos que se afirmam ativistas. Entende que práticas opressoras podem vir de qualquer canto, de qualquer lugar. O nomadismo identitário prima por construir formas de confrontar estas práticas, coletivamente, de forma tensa e precária, sem a pretensão de um campo de força que separa grupos ativistas do restante da sociedade.

O nomadismo identitário constrói afinidade desde a diferença entre nós, desde a singularidade, não desde uma pretensa homogeneidade entre as pessoas.

É entender que violências diferentes (racismo, transfobia, heterossexismo) não são frutos individuais de pessoas (brancas, cis, heterossexuais), mas funcionam em conjunto para construir o ideal de famílias e cidades limpas, assépticas e moralizadas. Confrontar o higienismo, a asspesia e o moralismo é algo que só podemos fazer juntas, mesmo entendendo que nossas histórias e nossas vivências de privilégio e opressão, não são as mesmas.

O nomadismo identitário não é um exercício meramente retórico, nem imaginativo (embora imaginação e retórica podem ser partícipes do processo). É um gesto prático de intervenção frente às marcas e lugares que ocupamos, não apenas no sentido de identificá-las, mas no sentido de agir para transformá-las.

Entendendo-nos como pessoas fechadas, coerentes, lineares, nos colocamos em um lugar muito difícil de criar empatia com pessoas que vivem violências e opressões diferentes das nossas. Habituadas a organizar grupos sempre pela lógica do “mesmo” (aquilo que compartimos em comum), não desenvolvemos a habilidade de conectar, e aprender, com aquilo que nos é estranho, infamiliar.

Mapear nossas identidades pode até ser um passo para nos empoderarmos e construir nossas políticas de resistência. Mas é necessário dar um passo adiante. Nos aferrar e nos fechar dentro desse tipo de política está nos entrincheirando dentro de bolhas isoladas, desconfiadas entre si, com pouca força para efetivamente resistir e transformar nossas realidades.

Assumir a possibilidade nômade de quem somos, e de quem as outras pessoas podem ser, é um confronto a nosso próprio sedentarismo. Nos tira da zona de conforto. É sair da pretensão de encontrar O espaço seguro, limpo e perfeito, para compor assembléias tensas, conflituosas, em que as práticas de opressão precisam ser apontadas e problematizadas todo o tempo. E onde também teremos que rever as nossas.

Mas é onde efetivamente poderemos crescer, nos transformar. Porque, se não é pra efetivamente mudarmos, deixarmos de ser aquilo que éramos, realmente não vejo que tipo de militância pode ter sentido.