obsessão X nomadismo identitário

Esse texto traz inquietações. Traz problemas. Não tem uma pretensão de definir ‘verdades’, nem de trazer respostas definitivas. Mas tenta propor algumas pistas.

É sobre o quê? O ponto de partida aqui é pensar sobre uma série de conflitos, intrigas, perseguições e ameaças têm surgido na cena de algumas cenas ativistas. DENTRO destas cenas. Quer dizer, envolvendo pessoas que supostamente (ênfase no supostamente) deveriam estar aliando-se na luta contra o patriarcado, contra o cistema, contra o heterocapitalismo. E parece que se separam cada vez mais.pelo fim de toda e qualquer opressão

É impossível dar visibilidade a todos os problemas envolvidos nesses conflitos, mas queria indicar uma coisa / um vírus, um hábito, uma tecnologia, uma prática corrente na construção de movimentos sociais / que talvez esteja alimentando estas intrigas: vou chamar aqui de obsessão identitária.

(a) O que eu to chamando de identidade? (b) E o que eu quero dizer por obsessão?

Existem várias definições de identidade mas, dentro do contexto ativista, costuma significar: a leitura, o diagnóstico, sobre violências, opressões e/ou privilégios que são (estruturalmente) compartidas por um determinado grupo.

Identidades podem ser um ponto de referência, para mapear a posição que o mundo nos coloca nas relações de poder.

Reapropriar-se de uma identidade pode significar reapropriar-se das marcas que a sociedade traça no seu corpo (marcas traçadas através de violência sexista, transfóbica, racista, heteronormativa). Frente a isso, assumir uma identidade pode ser um ponto de partida, precisamente para que possamos transitar para além dessas posições, para além dessas marcações.

Entender as violências e os medos que passamos para aprender com eles, nos tornar mais fortes.

O problema é quando, ao invés de funcionar como um ponto de partida, as identidades tornam-se uma finalidade. Isso funciona em pelo menos três sentidos (complementares):

(1) fazer da identidade algo que precisa ser protegido, vigiado, resguardado pelos movimentos sociais, para impedir que as “pessoas erradas” transitem em uma luta onde elas não podem estar.

A identidade sempre implica a separação entre nós e outros, pressupondo que essa divisão é explicitamente nítida e empírica. A questão é: o que acontece com pessoas que habitam a fronteira? Como dar conta de lutar contra o sexismo atingindo pessoas trans* que não são nem homens nem mulheres? Como dar conta de enfrentar o heterossexismo que atinge pessoas bissexuais, sem estigmatizá-las?

As identidades sempre lidam com o risco de que pessoas erradas podem se apropriar dela. Compõem formas de policiamento, então, para evitar que isso aconteça: definem padrões para decodificar uma “verdadeira pessoa transgênero” de outra que “está só fingindo”, por exemplo, padrões que são cisnormativos por excelência.

(2) fazer da identidade uma posição estrutural fixa, fechada, dada de antemão pelo “destino”. E o papel desse “destino” pode ser interpretado pelos mais diversos personagens: desde o essencialismo biológico até a noção de uma super-estrutura histórica que nos condena a papéis fixos e inalteráveis.

a identidade é um câncer, que reduz nossas vivências e experiências a aquilo que é inteligível e codificável (nossas posições binárias: homem/mulher, hétero/homo, cis/trans), esmagando processos micro que têm o poder de arruinar as categorias que habitamos, para devirmos algo além do que nos destinaram a ser.

(3) a identidade abstrai, e idealiza, os grupos de resistência que propõe a construir como os únicos espaços seguros e livres de violência que podem existir para as pessoas que sofrem aquela opressão.

Essa idealização, por vezes, atrapalha a problematização interna das práticas que compõem este mesmo grupo.

(4) essa mesma supressão de tudo o que não é inteligível ou codificável, nos torna previsíveis, mais facilmente controladas e manipuladas pelos poderes do Estado.

Resumindo, toda política que toma a identidade como uma finalidade: reproduz opressões;  silencia exercícios de opressão; destrói o desejo e possibilidades reais de mudança;  torna-se calculável e manipulável pelos mesmos regimes de poder a que se opõe.

A identidade constrói um senso de participação política dentro de movimentos. Mas, a longo prazo, é incipiente para fazer dos movimentos uma ameaça real contra o patriarcao, contra o cistema, contra o heterocapitalismo, uma vez que agrupam pessoas desde quem elas são, e não desde que práticas e modos de vida estão construindo.

Se existe algo que realmente ameaça a obsessão identitária das militâncias contemporâneo, é o nomadismo identitário.

O nomadismo identitário implica que as marcas identitárias não são fixas, mas (ao menos enquanto vivemos) marcas e posições passíveis de se transformar com nossas práticas, com os lugares por onde transitamos.

O nomadismo identitário implica a possibilidade de lutar desde o molecular, desde o que se infiltra, desde o que produz desejo, vitalidade e forças ativas. Não se trata apenas de uma reação, mas de ação direta no sentido de transmutar as relações que vivemos.

O nomadismo identitário não idealiza a segurança de grupos que se afirmam ativistas. Entende que práticas opressoras podem vir de qualquer canto, de qualquer lugar. O nomadismo identitário prima por construir formas de confrontar estas práticas, coletivamente, de forma tensa e precária, sem a pretensão de um campo de força que separa grupos ativistas do restante da sociedade.

O nomadismo identitário constrói afinidade desde a diferença entre nós, desde a singularidade, não desde uma pretensa homogeneidade entre as pessoas.

É entender que violências diferentes (racismo, transfobia, heterossexismo) não são frutos individuais de pessoas (brancas, cis, heterossexuais), mas funcionam em conjunto para construir o ideal de famílias e cidades limpas, assépticas e moralizadas. Confrontar o higienismo, a asspesia e o moralismo é algo que só podemos fazer juntas, mesmo entendendo que nossas histórias e nossas vivências de privilégio e opressão, não são as mesmas.

O nomadismo identitário não é um exercício meramente retórico, nem imaginativo (embora imaginação e retórica podem ser partícipes do processo). É um gesto prático de intervenção frente às marcas e lugares que ocupamos, não apenas no sentido de identificá-las, mas no sentido de agir para transformá-las.

Entendendo-nos como pessoas fechadas, coerentes, lineares, nos colocamos em um lugar muito difícil de criar empatia com pessoas que vivem violências e opressões diferentes das nossas. Habituadas a organizar grupos sempre pela lógica do “mesmo” (aquilo que compartimos em comum), não desenvolvemos a habilidade de conectar, e aprender, com aquilo que nos é estranho, infamiliar.

Mapear nossas identidades pode até ser um passo para nos empoderarmos e construir nossas políticas de resistência. Mas é necessário dar um passo adiante. Nos aferrar e nos fechar dentro desse tipo de política está nos entrincheirando dentro de bolhas isoladas, desconfiadas entre si, com pouca força para efetivamente resistir e transformar nossas realidades.

Assumir a possibilidade nômade de quem somos, e de quem as outras pessoas podem ser, é um confronto a nosso próprio sedentarismo. Nos tira da zona de conforto. É sair da pretensão de encontrar O espaço seguro, limpo e perfeito, para compor assembléias tensas, conflituosas, em que as práticas de opressão precisam ser apontadas e problematizadas todo o tempo. E onde também teremos que rever as nossas.

Mas é onde efetivamente poderemos crescer, nos transformar. Porque, se não é pra efetivamente mudarmos, deixarmos de ser aquilo que éramos, realmente não vejo que tipo de militância pode ter sentido.

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