Heresias não-binárias

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Poderíamos pensar nossas crenças como espécies de lentes, através das quais se filtra nossa relação com a realidade (com corpos, afetos, o que se move em geral).

Existem crenças-lentes que nos limitam. Que recortam nossa possibilidade de discernir as diferentes nuances do que nos rodeia. Nos fazem agrupar corpos e pessoas em grupos uniformes dentro dos quais, muitas vezes, estas não cabem.

A crença de que as pessoas se dividem “naturalmente” e “biologicamente” entre Homens ou Mulheres é uma dessas crenças-lentes que nos limitam.

Através dessa crença, os discursos da medicina, da biologia, da psicologia, antropologia, etc, contruíram um conjunto de narrativas, que oferece sentido aos corpos (nossos e alheios).
A partir dessas narrativas da nossa sociedade, as pessoas são pressionadas a construírem entendimentos sobre si próprias e sobre as outras, com base nessa divisão.

Nossa cultura pressiona que a gente se entenda enquanto “indivíduos” (entidades que não podem ser divididas”) – entendimento a partir do qual somos responsabilizades moralmente, juridicamente, psicologicamente, etc. E dentro desse entendimento de si enquanto “indivíduos”, pressionam que a gente construa um “senso de pertencimento” a um gênero que essa mesma cultura nos assigna: “você será como um homem” / “você será como uma mulher”.

Assim, existem aqueles que muito crêem “sou assim porque sou homem, nasci homem, sempre serei assim porque sou homem”/ “sou assim porque sou mulher, nasci mulher, só poderei ser isso porque sou mulher” – ” [X pessoa] é assim porque é homem, nasceu homem, sempre será como homens” / “[Y pessoa] é assim porque é mulher, nasceu mulher, inevitavelmente terá esse tipo de comportamento”.

Tudo isso com base em ficções. “Homem” e “Mulher” não são entidades que existem de fato. São significados que nossa sociedade constrói, filtrando a percepção dos nossos corpos (peneirando sua diversidade, dissociando-nos do que não encaixa), filtrando a percepção dos nossos comportamentos (peneirando sua diversidade, dissociando-nos do que não encaixa), filtrando a percepção dos nossos afetos (peneirando sua diversidade, dissociando-nos do que não encaixa), etc.

Acontece que algumes dentre nós vivemos a partir de referências, sensações, e experiências que não se encaixam nas lentes-crenças do binarismo. Algumes dentre nós percebemos que a maior parte do que nos proporciona afeto, potência e sentido sobre quem somos, não cabe nas caixinhas “homem / mulher”. Algumes dentre nós olhamos pra essas entidades coletivas chamadas “Homens”, e não conseguimos entender como “sou um deles”. Algumes dentre nós olhamos pra essas entidades coletivas chamadas “Mulheres”, e não conseguimos dizer “sou uma delas”. Não por uma questão de vontade, mas porque nossas experiências simplesmente não cabem.

E apesar disso, não deixamos de ser socialmente cobradas a nos articular enquanto indivídues. Seria maravilhoso simplesmente transcendermos nossas identidades, não sermos cobrades (jurídica, moral, e psicologicamente) a ter uma resposta sobre quem somos (incluindo nossos nomes). Mas nós continuamos sendo cobrades a responder a pergunta “Quem é você?”, independentemente de nossa vontade ou desejo. E, no entanto, as respostas-padrão das quais dispomos para responder estas perguntas nos silenciam, nos invisibilizam, e nos violentam diariamente, lançando nossas vivências enquanto algo supostamente “delirante”, “fantasioso”, “narcisístico”. Muites dentre nós vivemos sob a contínua sensação de não-lugar, de não-existência (de uma forma muito mais extrema do que normalmente vivem as pessoas articuladas dentro de experiências cisgêneras*)

A partir disso, dessa vivência de não-lugar, muites dentre nós temos lutado para construir sentidos e narrativas próprios, auto-gestionados que, ao invés de matar e silenciar nossas vivências, lhe ofereçam alguma inteligibilidade às nossas experiências não-binárias de sexo-gênero.

Nós somos as pessoas trans não-binárias.
Somos corpos e vidas hereges, dissidentes, desobedientes à religião oficial que prega tudo dividir entre “masculino X feminino”.
Vivemos porque aprendemos a enxergar aquilo que o binarismo não sabe enxergar.
Vivemos porque aprendemos a ouvir aquilo que o binarismo não sabe ouvir.
Vivemos porque aprendemos a sentir aquilo que o binarismo não sabe sentir.

Compartilhamos afetos através das nossas peles, nossas línguas, nosses corpes profanes, reinventando sílabas, cumplicidades, alianças, afetações e magias.
Lutamos por um mundo outro, onde nossos corpos não se limitem pelos atestados médicos e jurídicos que nos designaram, pelos hormônios que nos atravessam ou deixam de atravessar, por nossos pêlos ou nossas genitálias, por como nos examinam ou deixam de examinar.

Por um mundo onde pulse aquilo que é mágico, delirante, múltiplo, absurdo, afetivo, aberto e dançarino entre todes nós.

[*pessoas cisgêneras → pessoas cujo senso de pertencimento a uma identidade de gênero coincide com as assignações médico-jurídicas atribuídas a quando esta nasceu.

Diferentemente de pessoas trans, cujo senso de pertencimento a identidades de gênero não coincide com esta assignação médico-jurídica.

Pessoas trans podem ser entendidas enquanto “binárias”, quando sua identificação dissidente articula-se a um dos 2 gêneros legitimados por nossa cultura (homem/mulher), e “não-binária” quando sua identificação dissidente não se articula a um destes 2 gêneros (seja por fluir entre estas identidades, seja efetivamente por não identificar-se com elas ) ]

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Amores próprios, amores livres

(amores próprios, amores livres)

O cis.tema em que a gente vive funciona por sua capacidade de nos roubar tudo o que poderíamos ter de amor próprio.

Dentro dessa vulnerabilidade, a gente aprende que precisa ter ‘valor’ dentro do que produz e reproduz essa sociedade. Parte disso implica na obrigação de sermos ‘trabalhadoras’, pessoas produtivas. E parte disso implica (especialmente para mulheres e demais pessoas não-homens-cis) em buscarmos o ideal de um amor que nos complete, que nos tire dessa posição de vulnerabilidade.
E esse cis.tema oferece todo tipo de imagens e narrativas sobre como esse amor deve ser. É necessário que seja monogâmico. Preferencialmente heterossexual. Que as pessoas envolvidas estejam alinhadas com o gênero assignado no nascimento. É necessário que controlem e coordenem o tempo uma da outra, privando a conexão dessa pessoa com potências que possam colocar esse modo de vida em risco, mantendo apenas o necessário para o trabalho, e para a produção de uma vida conjugal.

O cis.tema nos injeta fantasmas – todo tipo de ditados, histórias, dentro do qual aprendemos que toda relação que escape a isso é um ‘fracasso’, e que ‘fracassos’ são dejetos que precisam ser descartados. Disso tudo, o vínculo forte entre rejeição amorosa e suicídio – suicídio que, por sua vez, agencia-se muitas vezes como chantagem manipuladora para o sustento de certas relações;

Nisso tudo, eu sinto que – especialmente para pessoas que não são homens cis – tudo o que pode ser chamado de “amor livre” começa por amor próprio. Começa por mudar a relação com o que entendemos por ‘fracasso’. Começa por criar outras formas de viver nossas solidões.

Falar em ‘amor livre’ é falar na construção de um outro modo de vida.
Que não começa, e nem necessariamente passa, por “estar em relacionamento com alguém”.

Construir esse modo de vida (que, diferentemente do heterocapitalismo, não têm fórmulas, ainda está por se inventar) não é uma tarefa individual. E também não é uma tarefa conjugal (outra variação do individualismo).
É um processo que passa pelas redes de amizade que criamos, pela forma como gestionamos coletivamente nosso tempo, nossa alimentação, nosso cuidado com o corpo, nossos trabalhos.
É através disso que podemos fazer frente aos mecanismos de vulnerabilização do heterocapitalismo, que produzem inseguranças em escala industrial, pra construirmos coletivamente nossos “amores próprios”.
Também pela construção de outras narrativas, outros imaginários, outras formas de temporalizar e organizar nossos sentimentos.

É desde aí que os fantasmas que produzem ciúmes, inseguranças e necessidades de controle podem perder peso e sumir. É desde aí que o sentimento de ‘compersão’ consegue efetivamente se produzir.

(s)exílios

exilada
do homem que poderia ter sido

esparramada no mar aberto
onde meus peitos nascem
e todas as dores se derramam

exilada
da mulher que jamais serei

espalhada ao luar incerto
onde meus pêlos insistem
e o arame farpado se entrama

rumos quebrados
exílios de uma vida
que desistiu de ser.

Sobre passabilidade cis

existe uma diferença imensa entre
você pertencer a um grupo privilegiado
e você “passar como se fosse” uma pessoa que pertence a esse grupo privilegiado.

Passabilidade cis
significa que você (pessoa trans*) é lide pelas outras
sem ter a sua dissidência ao sexo assignado no nascimento
posta em evidência

em alguns casos
isso significa que a pessoa está te lendo como você não se identifica
(acionando a violência chamada: disforia)
em alguns casos
você está se camuflando de algo que você não é, pra evitar sofrer certas violência
(acionando outra violência chamada: armário)
em todos os casos
pode surgir uma relação de hostilidade e violência a qualquer momento
que a pessoa que te lê seja confrontada com sua transgeneridade.

Passabilidade cis
é um EFEITO da transfobia,
do olhar cissexista que distorce nossas imagens
dentro daquilo que prefere enxergar.

NENHUM grupo oprimido tem controle sobre como o olhar do opressor decide nos ver.
Pessoas trans*
NÃO POSSUÍMOS CONTROLE sobre como pessoas cis decidem nos enxergar.

Pessoas cis (especialmente homens) tendem a se aproveitar dos nossos momentos de passabilidade
tentando roubar nossos corpos das coletividades que efetivamente pertencem
para que nossa imagem sirva de interface ao exercício, ou à legitimação, das suas violências.

Passabilidade cis
não é um privilégio.
É um seqüestro cis.temático das potências que efetivamente somos.
Das alianças que efetivamente desejamos.
Das vidas que efetivamente pulsamos.

(nota: pessoas trans* que são chamadas de “viado”, “sapatão”, “caminhoneira”, “bicha” – e outras ofensas que historicamente foram associadas a lésbicas e gays – NÃO TÊM PASSABILIDADE, QUANDO ESSAS OFENSAS SE DIRIGEM À SUA EXPRESSÃO DE GÊNERO. Isso é reflexo de um momento histórico em que identidade de gênero e sexualidade não eram vistas como distintas. Essas ofensas, quando dirigidas a pessoas trans*, são transfóbicas, e não homo-lesbofóbicas como se costuma presumir)

Transhomofobias / Translesbofobias

A gente costuma pensar nos espaços Gays e Lésbicos enquanto espécies de bolhas, dentro das quais em que a Heterossexualidade/práticas Heterossexuais não são bem-vindas (ao menos entre as pessoas que se identificam diretamente enquanto lésbicas ou gays).

Mas existe uma versão de Heterossexualidade que é amplamente legitimada, e reforçada de forma compulsória nestes espaços, no que se trata da relação com corpos dissidentes à cisnormatividade.
Quando se trata da relação entre Gays e Lésbicas Cis com pessoas trans*.

Não é incomum a gente ver homens cis auto-identificados como gays que se atraem por mulheres trans*. Não é incomum a gente ver mulheres cis auto-identificadas como lésbicas que se atraem por homens trans*.

Partindo da premissa de um respeito radical à identidade das pessoas trans*, a gente precisa começar a chamar essas relações/desejos pelos seus devidos nomes, e entender que são desejos Heterossexuais amplamente presentes (e legitimados) dentro da cena Gay/Lésbica.

Tampouco é incomum nos depararmos com um contexto em que homens trans* e pessoas não-bináries AFAB costumam ser rejeitades na cena gay, bem como mulheres trans* e pessoas não-bináries AFAB costumam ser rejeitades na cena lésbica.

Efetivamente, essa lógica de atração/rejeição costuma ter por premissa negar a identidade das pessoas trans* – posto que, para as pessoas cis, tratam-se de homens que “no fundo” são mulheres e mulheres que “no fundo” são homens. A genitália permanece enquanto parâmetro para nos marcar como “verdadeiros homens” ou como “verdadeiras mulheres”. Dentro dessa negação, tais desejos quase nunca são admitidos como “heterossexuais”. Muito raramente estas pessoas cis admirem a possibilidade de se identificarem (por exemplo) como “bissexuais” quando sentem este desejo.

No entanto, Esse conjunto de atraçõe/rejeições têm por efeito pressionar cistematicamente pessoas trans* a relações heterossexuais.
Pressão que violenta muito especialmente lésbicas AMAB e gays AFAB que compõem o universo trans*.

Arriscaria usar as palavras Transhomofobia e Translesbofobia, enquanto variações específicas da homofobia e lesbofobia que atingem pessoas cis. Trata-se de pensar a forma específica como a heterossexualidade compulsória nos atinge enquanto pessoas trans* dentro da cena lésbica/gay, bem como fora dela.
Translesbofobia e Transhomofobia que não se dissociam dos protocolos psiquiátricos do “processo transexualizador”, dentro dos quais o desejo por pessoas do mesmo gênero ainda é um parâmetro de invalidação das nossas identidades.
Aparentemente, é um preço a pagar por nossa dissidência de gênero: “ok que você não se identifique como o que te assignaram; mas não nos complique a cabeça, o mínimo que você precisa fazer é relacionar-se com pessoas do gênero ‘oposto’ “.

De fundo às translesbofobias e transhomofobias, permanece a idéia de que o sexo é algo “instintivo”, “genético”, “biológico” – em algum aspecto, colado à “química dos feromônios” bem como às nossas genitálias. Essa lógica biologicista foi abraçada principalmente pelo movimento Gay ao argumentar que a homossexualidade, em se tratando de algo “inato”, “natural”, e “biológico”, não poderia ser curada por tratamentos de “mudança de comportamento”.

Se esse argumento pareceu, em algum momento, eficaz, certamente o foi apenas para pessoas Cis. Dentro da vivência de pessoas trans* – especialmente nãoheterossexuais – tornou-se apenas um dispositivo a mais para legitimar exclusões, rejeições, difamações e toda sorte de violências contra nossos corpos.

(in)visibilidades não-binárias

A existência de pessoas trans* é por si só bem invisível. Quanto é visível, é estereotipada.
No que se refere a pessoas trans* não-binárias, sequer cogitam que a gente existe. E rolam pouquíssimas referências sobre a singularidade dos nossos processos, formas de tratamento, e etc. A maior parte das pessoas acaba transpondo expectativas que se referem a pessoas binárias, sobre a gente.
Então eu queria só enfatizar algumas coisas, pra quem talvez não saiba:
eu não sou homem (nem estou “me tornando um”). E eu também não sou mulher (nem estou “me tornando uma”).
SE (aqui é uma hipótese construída desde minha visita a universos paralelos) eu me identificasse como “mulher”, certamente seria bem fora e bem longe dos padrões compulsoriamente estipulados pelo patriarcado. Não compro a idéia de que é necessário “ser feminina” para “ser mulher”.
E mesmo em termos de feminilidade, não acredito nas feminilidades dóceis, limpas e castradas que a Psiquiatria e a Psicologia demandam compulsoriamente das pessoas trans*.
Acredito em feminilidades desobedientes, raivosas, sujas, subversivas, satânicas, combativas.
(e, definitivamente, não seria hétero)
(voltando da viagem às realidades paralelas)
Porém, de todas as formas, mesmo com tantas possibilidades de identificar-me enquanto mulher que não excluem o corpo que eu habito hoje, essa NÃO É a identidade dentro da qual eu me reconheço ou me reivindico.

Que fique evidente: não existem só 2 pólos de existência no mundo.

Não existe só “ser homem” e “ser mulher”.
Nossas peles, nossa forma de tocar, nossos olhares, nossas vozes, nossas palavras, nossas faces, nossas posturas, nossas respirações, nosso jeito de vestir, de andar, de se maquiar, nossos afetos, nossos alfabetos.. enfim, nossas formas de existir podem ser bem mais complexos do que cabe nessas 2 caixinhas.
Se faltar referências imaginativas, imaginem-nos como “ficção científica”. Uma vez que somos justamente a matéria do que algumas ficções científica são metáforas; e uma vez que os discursos científicos que construíram as verdades que você possui sobre “sexo” são ficções também.

Eu não sou “uma pessoa perdida no meio do caminho”.
Nada contra pessoas que estão “perdidas” (perder-se não é um defeito), mas “perder-se” só existe em referência a um destino pre-estabelecido cuja trajetória você não consegue mais encontrar. Eu, tantas outras criaturinhas não-binárias, simplesmente não temos esse destino. Não pretendemos ter.
O não-lugar é nossa casa, esse caos de amores e feridas dentro do qual encontramos abrigo, alimento, vida e armas pra resistir, onde conseguimos respirar.