Amores próprios, amores livres

(amores próprios, amores livres)

O cis.tema em que a gente vive funciona por sua capacidade de nos roubar tudo o que poderíamos ter de amor próprio.

Dentro dessa vulnerabilidade, a gente aprende que precisa ter ‘valor’ dentro do que produz e reproduz essa sociedade. Parte disso implica na obrigação de sermos ‘trabalhadoras’, pessoas produtivas. E parte disso implica (especialmente para mulheres e demais pessoas não-homens-cis) em buscarmos o ideal de um amor que nos complete, que nos tire dessa posição de vulnerabilidade.
E esse cis.tema oferece todo tipo de imagens e narrativas sobre como esse amor deve ser. É necessário que seja monogâmico. Preferencialmente heterossexual. Que as pessoas envolvidas estejam alinhadas com o gênero assignado no nascimento. É necessário que controlem e coordenem o tempo uma da outra, privando a conexão dessa pessoa com potências que possam colocar esse modo de vida em risco, mantendo apenas o necessário para o trabalho, e para a produção de uma vida conjugal.

O cis.tema nos injeta fantasmas – todo tipo de ditados, histórias, dentro do qual aprendemos que toda relação que escape a isso é um ‘fracasso’, e que ‘fracassos’ são dejetos que precisam ser descartados. Disso tudo, o vínculo forte entre rejeição amorosa e suicídio – suicídio que, por sua vez, agencia-se muitas vezes como chantagem manipuladora para o sustento de certas relações;

Nisso tudo, eu sinto que – especialmente para pessoas que não são homens cis – tudo o que pode ser chamado de “amor livre” começa por amor próprio. Começa por mudar a relação com o que entendemos por ‘fracasso’. Começa por criar outras formas de viver nossas solidões.

Falar em ‘amor livre’ é falar na construção de um outro modo de vida.
Que não começa, e nem necessariamente passa, por “estar em relacionamento com alguém”.

Construir esse modo de vida (que, diferentemente do heterocapitalismo, não têm fórmulas, ainda está por se inventar) não é uma tarefa individual. E também não é uma tarefa conjugal (outra variação do individualismo).
É um processo que passa pelas redes de amizade que criamos, pela forma como gestionamos coletivamente nosso tempo, nossa alimentação, nosso cuidado com o corpo, nossos trabalhos.
É através disso que podemos fazer frente aos mecanismos de vulnerabilização do heterocapitalismo, que produzem inseguranças em escala industrial, pra construirmos coletivamente nossos “amores próprios”.
Também pela construção de outras narrativas, outros imaginários, outras formas de temporalizar e organizar nossos sentimentos.

É desde aí que os fantasmas que produzem ciúmes, inseguranças e necessidades de controle podem perder peso e sumir. É desde aí que o sentimento de ‘compersão’ consegue efetivamente se produzir.

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