(in)visibilidades não-binárias

A existência de pessoas trans* é por si só bem invisível. Quanto é visível, é estereotipada.
No que se refere a pessoas trans* não-binárias, sequer cogitam que a gente existe. E rolam pouquíssimas referências sobre a singularidade dos nossos processos, formas de tratamento, e etc. A maior parte das pessoas acaba transpondo expectativas que se referem a pessoas binárias, sobre a gente.
Então eu queria só enfatizar algumas coisas, pra quem talvez não saiba:
eu não sou homem (nem estou “me tornando um”). E eu também não sou mulher (nem estou “me tornando uma”).
SE (aqui é uma hipótese construída desde minha visita a universos paralelos) eu me identificasse como “mulher”, certamente seria bem fora e bem longe dos padrões compulsoriamente estipulados pelo patriarcado. Não compro a idéia de que é necessário “ser feminina” para “ser mulher”.
E mesmo em termos de feminilidade, não acredito nas feminilidades dóceis, limpas e castradas que a Psiquiatria e a Psicologia demandam compulsoriamente das pessoas trans*.
Acredito em feminilidades desobedientes, raivosas, sujas, subversivas, satânicas, combativas.
(e, definitivamente, não seria hétero)
(voltando da viagem às realidades paralelas)
Porém, de todas as formas, mesmo com tantas possibilidades de identificar-me enquanto mulher que não excluem o corpo que eu habito hoje, essa NÃO É a identidade dentro da qual eu me reconheço ou me reivindico.

Que fique evidente: não existem só 2 pólos de existência no mundo.

Não existe só “ser homem” e “ser mulher”.
Nossas peles, nossa forma de tocar, nossos olhares, nossas vozes, nossas palavras, nossas faces, nossas posturas, nossas respirações, nosso jeito de vestir, de andar, de se maquiar, nossos afetos, nossos alfabetos.. enfim, nossas formas de existir podem ser bem mais complexos do que cabe nessas 2 caixinhas.
Se faltar referências imaginativas, imaginem-nos como “ficção científica”. Uma vez que somos justamente a matéria do que algumas ficções científica são metáforas; e uma vez que os discursos científicos que construíram as verdades que você possui sobre “sexo” são ficções também.

Eu não sou “uma pessoa perdida no meio do caminho”.
Nada contra pessoas que estão “perdidas” (perder-se não é um defeito), mas “perder-se” só existe em referência a um destino pre-estabelecido cuja trajetória você não consegue mais encontrar. Eu, tantas outras criaturinhas não-binárias, simplesmente não temos esse destino. Não pretendemos ter.
O não-lugar é nossa casa, esse caos de amores e feridas dentro do qual encontramos abrigo, alimento, vida e armas pra resistir, onde conseguimos respirar.

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