Abrindo o código dos ciúmes: sobre sentir compersão desde a monstruosidade

eu ando com vontade de escrever algumas coisinhas sobre “amor livre”, sentimentos de compersão, ciúmes, e etc.

Muitas vezes, eu sinto que rola uma hierarquização sobre as pessoas, com base nas emoções que elas sentem. Do tipo “pessoas que sentem bons sentimentos” (sentimentos valorizados dentro de certo contexto histórico, social, político) frente a “pessoas que sentem maus sentimentos” (sentimentos condenados dentro de certo contexto histórico, social, político).

Isso vale pra muita coisa, desde a forma como nossa cultura coloca raiva como uma coisa “de pessoas más” e resignação como algo “de pessoas boas”.

Eu sinto que entre o micromundinho de pessoas que pensam criticamente a monogamia compulsória, rola muito pouca elaboração sobre a forma como a gente pensa coisas difíceis e complexas tal como Ciúmes, e acaba que a gente aciona esse velho mecanismo de hierarquizar pessoas com bases em emoções. Pessoas que sentem compersão são aparentemente “pessoas boas”, purificadas, livres do que é sujo e ruim. Pessoas que sentem ciúmes são lidas como “pessoas más”, neuróticas e noiadas.

Questão é que o sentimento de compersão é muito ligado ao sentimento de auto-confiança. À possibilidade de sentir que não dependemos exclusivamente de uma pessoa para ser amades, desejades ou cuidades.
Que o sentimento de ciúmes é muito ligado a sentimentos de insegurança. À incerteza de que o mundo, fora da relação com uma determinada pessoa, nos pode ser acolhedor.

Disso, a gente precisa entender que estes sentimentos de “auto-confiança” e “insegurança” não estão desvinculados da posição que a gente ocupa em termos do que é considerado desejáve ou indesejável dentro da nossa sociedade.
Por exemplo: se você é uma pessoa branca, cis, sem deficiências, magra, bonita, é muito mais fácil que o mundo parece um lugar amoroso e acolhedor pra você – do que se você é uma pessoa trans*, e/ou uma pessoa negra, e/ou uma pessoa gorda, e/ou uma pessoa marcada pelo estigma da deficiência, e/ou uma pessoa fora dos padrões de beleza, etc.

A gente vê que, dentro dos próprios rolês libertários que falam de “amor livre”, as pessoas não questionam essas desejabilidades. As pessoas continuam hierarquizando “dyvas do rolê”. As pessoas continuam desejando mais rapidamente os corpos que mais situam-se dentro dos padrões de normalidade.

É muito mais difícil, para pessoas marcadas em uma posição abjeta, de não-desejo, sentir-nos “felizes” e “compersivas” por relacionamentos que expressam as mesmas dinâmicas desejantes que sistematicamente nos rejeitam e nos excluem.
Ao mesmo tempo, nossa infelicidade e nosso ressentimento são marcados como sentimentos de “más pessoas”, o que acaba fodendo ainda mais nossa auto-estima.

Não quero aqui naturalizar que pessoas em posição minoritária “não conseguem sentir compersão”, que estamos condenadas a viver com ciúmes, muito menos que somos incapazes de levar relacionamentos abertos. Mesmo porque eu sou uma pessoa trans* que não tem o menor interesse em relacionamentos monogâmicos.

O que eu quero chamar atenção é que, pra muitas de nós, o trabalho de processar e lidar com ciúmes é um trabalho em dobro, porque as inseguranças implicas se interseccionam com opressões que a gente não escolheu viver.
Que a uma parte considerável das pessoas que falam de “amor livre” partem de posições privilegiadas, que fazem pouquíssimo (pŕaticamente zero) esforço pra desconstruir seus sistemas de desejabilidade, e seguem tratando nossos fantasmas como uma responsabilidade individualmente nossa, das “más pessoas” (como se tivéssemos escolhido ter que lidar com seus sistemas de desejo escrotos e opressivos).

E ainda com tudo isso nós, as monstras, seguimos no processo de desconstruir e reinventar nossos afetos. Cada vez menos monogâmicos, sim senhorxs.
Mas também cada vez menos racistas, menos transfóbicos, menos capacitistas, menos gordofóbicos.
Porque o ideal de “amor livre” das pessoas brancas, cis, magras, bonitas, e sem deficiência definitivamente não nos interessa

beijocas más.

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