“A garota dinamarquesa” e a invisibilidade do amor entre mulheres

(por Raíssa Éris Grimm)

A garota Dinamarquesa” (filme dirigido por Tom Hooper, baseado no romance de David Ebershoff) não é simplesmente uma história de amor.
É uma história de amor entre mulheres.

Questão que é freqüentemente invisibilizada pelo olhar masculino e cisgênero de quem produziu o filme.

Se trata de uma história de amor entre mulheres, em 1920. Um amor que se inicia, presumivelmente, heterossexual – dentro do qual, aquela que havia sido assignada “homem” ao nascer, se descobre mulher. E então, casada com outra mulher.
Daí a gente pode se perguntar:
qual era realmente a possibilidade, naquela época, de duas mulheres se amarem, de duas mulheres viverem juntas?

Numa época que a palavra “lesbianidade” mal existia?
(praticamente não aparece no filme inteiro, salvo no momento que um grupo de agressores lê a protagonista como uma sapatão)

Amor entre mulheres naquela época não tinha visibilidade alguma.
O amor entre mulheres mal tinha nome
(e os nomes que existiam eram lidos como “perversão”, não como amor).

Então esse filme conta a história de duas mulheres,
que sim se amavam, se amavam muito
mas (quando uma delas começa a realmente se expressar e buscar visibilidade enquanto mulher)
não encontravam qualquer espaço de inteligibilidade pro amor que sentiam uma pela outra
em função da heterossexualidade compulsória – que lia o amor por outra mulher como algo contraditório a ser vivido pela protagonista na sua transição.

A protagonista, Lili, não expressa de fato desejo algum por homens.
Não desejo real.
Todas as cenas de afeto e erotismo real se davam com a sua esposa (antes de transicionar, e no inicio da transição).

A primeira cena em que um homem demonstra interesse por Lili, é nitidamente, uma cena de assédio. Uma cena abusiva, de insistência em transformar o ‘não’ inicial dela num ‘sim’.
Que é simplesmente romantizada no filme.
Que se transforma noutra dinâmica, posteriormente, quando através do olhar desse rapaz Lili encontra possibilidade de ser lida enquanto mulher (e se afasta do mesmo quando ele expressa que na verdade é homossexual).

O desejo que ela de fato expressa na relação com outros homens é o de ser reconhecido enquanto mulher.
Numa época em que a heterossexualidade compulsória era impiedosa, numa época em que não existia nenhum referencial de mulheres lésbicas, ser desejada por homens era a única possibilidade de ser reconhecida enquanto mulher.
E é isso que ela busca.

Mas afeto real – envolvendo erotismo, reciprocidade, troca (junto a muitos conflitos) – só existem com a companheira dela (a Gerda).

Sim, estamos falando de uma mulher trans lésbica, que precisa engolir e deixar a lesbianidade no armário, porque naquele momento isso simplesmente não tinha possibilidade de existir.
Não existiam mulheres casadas. Não existiam mulheres morando juntas, afetivamente. Não existia visibilidade pra amor entre mulheres.

A heterossexualidade compulsória também cruza e se agencia na subjetividade de Gerda, sua companheira.
Que só conseguia cogitar a possibilidade de amar Lili enquanto ela fazia o papel de “homem”
(mesmo que a dinâmica do relacionamento entre ambas estivesse bastante distante, o tempo inteiro, do “típico casal heterossexual” – mesmo antes da transição)

Novamente: ela não possuía qualquer referencial para a expressão dos seus afetos, porque todos os referenciais existentes de amor eram sobre “homens amando mulheres”.
No máximo de subversão – dentro de uma sociedade falocêntrica, em certos circuitos ‘alternativos’ – “homens amando outros homens”.

A lesbofobia, a lesbotransfobia, são pontos cegos do filme.
Não são abordados diretamente em momento algum.
Mas atravessam o tempo inteiro as dinâmicas que ali se desenrolam.

Lili é pressionada, por todos os lados, a se heterossexualizar para ter qualquer tipo de legitimidade enquanto mulher.
Destruindo toda sua história afetiva e dinâmicas que até então vivia.
Sua lesbianidade não encontra qualquer espaço pra ser nomeada, não encontra qualquer espaço pra existir, seus afetos são negados e massacrados do começo ao fim.

Fico pensando na sorte em que eu mesma, mulher trans sapatão, tenho em ter nascido na época de hoje.
Em como o avanço da luta e da visibilidade lésbica, ao longo das últimas décadas, ajudaram a muitas de nós travestis e mulheres trans lésbicas a encontrarmos outros referenciais para existirmos.

Pra entendermos que amor entre mulheres é uma possibilidade real, que não precisa ser negado ou destruído no nosso processo de transição.

Entendermos que amor não é apenas heterossexual, que sexo não consiste apenas em penetração, que nossa transição pode abrir possibilidades tantas, possibilidades outras, de reinventarmos nossos afetos através da reinvenção do corpo.

Fico pensando na sorte que Lili poderia ter tido, se outros caminhos afetivos pudessem existir como possibilidade.
Se a sua trajetória talvez não tivesse sido menos solitária, menos dolorosa, fora das grades que a hetero.cis.normatividade nos impõem.

Tenho a sorte de estar viva, (r)existindo travesti, (r)existindo sapatona.
Uma sorte que Lili não pôde ter.